sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Venda de repotagens


Estava pesquisando na internet, e acabei achando esta reportagem sobre compra e venda de reportagens. Achei muito interessante e resolvi postar aqui.





02/09/2003 - 10h00

Mídia do PR vende R$ 6,4 mi de "reportagens"

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FERNANDO RODRIGUES
da Folha de S.Paulo, em Brasília

O governo do Estado do Paraná gastou R$ 6,418 milhões em 2002 com a compra de "reportagens" em 76 veículos de comunicação (68 jornais, 6 revistas e 2 colunas). O governador do Estado na época era Jaime Lerner (PFL). As operações são legais e estão registradas, embora a ANJ (Associação Nacional dos Jornais) proíba essa prática em seu código de ética.

A Folha teve acesso a 187 notas fiscais que atestam as negociações. As informações foram tabuladas e checadas. O processo de apuração levou sete meses. Todos os envolvidos foram procurados, sendo que 67 foram localizados. Desses, um negou a venda de "reportagens", apesar de ter sido confrontado com documentos.

O Paraná é o sexto Estado mais rico do país, segundo o IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2002, gastou R$ 86,129 milhões com publicidade e propaganda --desse total, 7,43% (R$ 6,418 milhões) foram para "reportagens".

A existência de "matérias pagas", como se diz no jargão jornalístico, é uma prática disseminada no Brasil, sobretudo em publicações de pequeno e médio portes. O país não tem uma mídia regional forte nem com independência financeira. Parte dos jornais e das revistas aceita dinheiro para divulgar como "reportagem" informação de interesse de políticos ou empresas. Não havia registro até hoje, porém, de tantas "matérias pagas" comprovadas com notas fiscais como nesse caso do Paraná. Empilhada, a documentação tem quase meio metro de altura --as 187 notas fiscais, as planilhas de inserção dos textos, os processos de faturamento e as milhares de páginas com cópias dos textos.

O código de ética da ANJ condena a prática de venda de reportagens. A regra manda "diferenciar, de forma identificável pelos leitores, material editorial e material publicitário". A Folha é filiada à ANJ e cumpre essa determinação.

Todos os 120 veículos associados da ANJ devem seguir a regra. No Paraná, 13 jornais são filiados à ANJ. Quatro venderam reportagens em 2002 sem identificar para os leitores que se tratava de uma operação comercial. São eles: "Diário dos Campos" (Ponta Grossa), "Diário Popular" (Curitiba), "O Estado do Paraná" (Curitiba) e "Tribuna do Norte" (Apucarana). Ouvidos pela Folha, representantes dessas quatro publicações confirmaram as operação de venda de reportagens.

Apenas um veículo de circulação nacional está incluído na documentação das "matérias pagas" do Paraná: a revista "IstoÉ Gente", da Editora Três. Em duas edições veiculou reportagens sobre atrações turísticas paranaenses para as quais há notas fiscais cobrando R$ 500 mil pela "inserção". Desse valor, R$ 100 mil foram pagos de comissão à agência de publicidade que estava licitada para fazer o negócio, a Loducca.

A direção da "IstoÉ Gente" nega que tenham sido operações de venda de "reportagens". Seriam, diz a revista, casos de reimpressões de textos em forma de encarte para serem distribuídos pelo cliente (o governo Lerner).

Licitações legais

A operação de venda de "reportagens" é clara nos documentos. À exceção da "IstoÉ Gente", os proprietários e editores dos veículos ouvidos pela Folha confirmam os negócios. "Eu faço através de nota fiscal", diz Newton Della Bona, dono da revista "Panorama".

Cada processo de venda de "reportagens" contém três itens principais: 1) a nota fiscal do meio de comunicação que vendeu o espaço para a publicação do texto do governo estadual; 2) fotocópias do que foi divulgado no veículo; e 3) a nota fiscal da agência de publicidade que intermediou o negócio. Tudo está carimbado e conferido pelos então responsáveis no governo paranaense.

O material a que a Folha teve acesso está arquivado em dois lugares: no Tribunal de Contas do Estado do Paraná e na Procuradoria Geral do Estado do Paraná.

Todos os casos de "reportagens" pagas foram intermediados por três agências de publicidade: Loducca, Opus Múltipla e Master.

Ao fazer a intermediação, as agências exerciam um direito adquirido por meio de licitação pública. O governo paranaense fez uma concorrência para divulgação de "ações de governo" junto com publicidade. Aí estão embutidas as "matérias pagas". A comissão das agências foi de 20%, uma praxe no mercado publicitário. Do total de R$ 6,418 milhões gastos pelo governo, R$ 1,283 milhão foi para o cofre dos publicitários contratados --cujo trabalho foi apenas emitir as notas fiscais. Os textos eram produzidos pelos veículos ou pelo governo.

Tom laudatório

Há um tom laudatório a favor de Jaime Lerner nas "reportagens" vendidas. O então governador é dado como responsável por várias boas ações na mídia local.

"Lerner construiu 534 pontes em sete anos", publicou o "Jornal do Oeste", de Toledo, em 10 de março de 2002. Valor pago por essa e mais 22 "notícias", inclusive "Lerner recebe medalha de honra da Ucrânia": R$ 30 mil.

"Programas educacionais do governo reduzem em 21% o analfabetismo entre jovens", divulgou o jornal "A Notícia", em 14 de março de 2002, por R$ 1.600.

Como as reportagens falavam do governador paranaense, muitas vezes seus aliados também aparecem beneficiados pelas "matérias pagas". Por exemplo, em 18 de março do ano passado, o "Jornal Regional", de Loanda, publicou no alto de uma página: "Lerner e FHC inauguram pontes e pregam a união pela governabilidade". A nota fiscal descreve o valor do serviço "com chamada na capa" em cores: R$ 3.200.

Fani Lerner, mulher de Jaime Lerner, também teve sua imagem divulgada à custa de "matérias pagas". Em 24 de abril do ano passado, ela apareceu em foto ilustrando metade da primeira página do "Diário da Manhã", de Ponta Grossa. Na página 13, a "reportagem": "Fani Lerner é a mulher do ano". Por esse e outros textos, o jornal recebeu R$ 24 mil.

Apesar de venderem as "reportagens", alguns jornais têm slogans para autopromoção defendendo a ética jornalística. O "Jornal Caiçara", de União da Vitória, estampa na sua primeira página: "Professa a Verdade - Insinua o Belo - Advoga o Bem". Cobrou R$ 1.000 para publicar que o "Paraná gerou em fevereiro [de 2002] 5.511 empregos formais".

O "Impacto", de Santo Antônio do Sudoeste, apregoa em sua nota fiscal: "O jornalismo que valoriza a sua imagem". Na fatura, registra R$ 1.600 em troca de "divulgações de ações de governo".

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Entrevista

A entrevista a seguir foi realizada com a jornalista Bianca Giannini, repórter em economia.

1) Quais são as prioridades de uma revista na transmissão das notícias e informações aos seus leitores? Quais são os critérios para que uma matéria seja ou não aceita?

Diferente do que acontece nos jornais diários, onde as prioridades são as matérias factuais, mais quentes e nervosas, nas revistas a preocupação maior é dar um enfoque diferenciado e mais aprofundado a um determinado assunto, independente de ser um furo jornalístico ou não. Se conseguir dar um furo e ao mesmo tempo apresentar as informações completas, muito melhor. Há vários exemplos desse tipo, nas revistas brasileiras, nos últimos anos. Um dos mais recentes e marcantes foi a revista “Isto É Dinheiro”, em junho de 2005, que trouxe como reportagem de capa entrevista com a ex-secretária do publicitário Marcos Valério, Fernanda Karina Somaggio, que resultou no escândalo do mensalão.
Para que uma matéria seja ou não aceita em uma revista, dependerá muito do perfil de cada revista. Mas de maneira geral deve ser uma história bem contada, de assunto de interesse ao público a que ela se destina e bem apurada (embora nem sempre aconteça assim na prática). Um critério muito utilizado para que uma matéria entre em determinada edição é o chamado "rec" (recomendado), de interesse dos donos ou dirigentes da revista. Mas normalmente, a não ser que a revista seja muito picareta, há mais matérias de interesse editorial que as recomendadas.

2) Quais eram as estratégias da revista, na qual você trabalhou, para conquistar seu público alvo, e até que ponto estas estratégias e os demais interesses influenciavam no trabalho do jornalista?

A principal estratégia para conquistar o leitor deve ser sempre publicar assuntos de interesse desse público alvo e, certamente, bem escritos, de forma simples e direta. Além dessa condição básica, há estratégias comerciais, como usar nas matérias informações de empresas ou pessoas que possam trazer prestígio à publicação ou anúncios pagos. Por exemplo: uma revista pode falar sobre tendências da arquitetura e novos lançamentos da construção civil e na matéria, incluir informações e entrevistas de empresas ou arquitetos pré-determinados. É dessa forma que o trabalho do jornalista é influenciado, pois ele deixa de ter liberdade para escolher seus entrevistados. Também ocorre o contrário, onde uma determinada pessoa ou empresa faz parte da lista negra da revista e por isso não pode ser fonte para a matéria. Muitas vezes pautas são especificamente criadas para que interesses comerciais sejam defendidos.

3) Quais são os requisitos necessários para que um profissional seja um freelancer de sucesso?

Bons contatos, qualidade no texto e na apuração, pontualidade, comprometimento e disciplina, disciplina, disciplina..... nisso estão incluídos disciplina com os horários de trabalho e com a vida financeira (saber guardar dinheiro para os períodos de vacas magras, como fim de ano, férias, etc). Também é comum o profissional freelancer pegar mais serviços do que ele dá conta, por não saber dizer não. Outro problema: não saber dar preço. É preciso valorizar o próprio trabalho, mesmo sob o risco de perder uma determinada concorrência.

4) Ser freelancer e, acima de tudo, bom jornalista, se aprende de fato na faculdade?

Não. A faculdade é o ponto de partida. É lá que temos uma noção de como as coisas funcionam e, sobretudo, é onde devemos apurar o nosso senso crítico, ética e, claro, a técnica jornalística. Mas é no mercado, na lida diária, que o jornalista vai se aprimorando. Existe uma coisa que se chama feeling jornalístico, que infelizmente não se ensina na escola. A pessoa já tem naturalmente esse feeling ou aprende a desenvolvê-lo com a experiência.

5) Quais são os empecilhos que você encontrou para produzir matérias de qualidade, ou até mesmo com alto grau de fidelidade em relação aos fatos reais?

De variados tipos. Desde a secretária metida a besta, que acha que manda no chefe e barra o acesso, até aquele entrevistado que é amigo do diretor do jornal, que exige ler a matéria antes de ser publicada ou faz algum tipo de ameaça velada. A falta de infra-estrutura da empresa jornalística também pode prejudicar. A falta de carro, por exemplo, pode impedir que o repórter vá in loco conferir determinado fato, tendo que fazer uma apuração importante por telefone. Em vários casos a apuração por telefone não prejudica a qualidade da informação, mas em outros a presença física do repórter é fundamental. Chefe medroso também é um empecilho terrível para o jornalista. É fundamental contar com o apoio e a coragem da chefia para bancar determinadas matérias, como denúncia, por exemplo. A auto-censura também pode prejudicar a qualidade das matérias no que se refere à fidelidade aos fatos reais. É comum, por saber os interesses da empresa onde trabalha o jornalista deixar de incluir determinada informação, já se antecipando a uma possível censura da direção.
Gostaríamos de agradecer, além da jornalista Bianca Giannini por nos conceder esta entrevista, ao jornalista Gustavo Nolasco Barcelos, que possibilitou a realização desta.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Instituto Gutenberg e a Mídia Norte Americana

Navegando na internet a respeito de idéias que corroborassem com minha opnião a respeito da crítica de mídia internacional encontrei a opinião arrebatadora de Noam Chowsky através do Instituto Gutenberg. Pelo que pude perceber este Instituto atuou entre 1995 e 1997 e atuou como órgao crítico de mídia seguindo a seguinte ideologia:

"O Instituto Gutenberg nasce, homenageando o alemão que inventou os tipos móveis da imprensa, credenciando-se a ser um fiscal independente da mídia. Todas as pessoas e instituições que se aglutinam em torno do Instituto tem a defesa das liberdades democráticas incrustadas em seus currículos e zelam pela liberdade de imprensa como um valor da sociedade, tanto quanto a liberdade de expressão, de religião, de organização e os direitos individuais que dão sentido e força a uma nação civilizada."

Voltando a carta de Noam Chowsky, a imprensa internacional se mostra obrigada a mentir para exercer sua liberdade de expressão, mas até que ponto esse vício é saudavel?

O jornalismo em revista Norte Americano demonstra um sensacionalismo exagerado e uma visão essencialmente trivial da sociedade. Existe uma certa dificuldade para nós leitores identificarmos a importância das notícias que são apresentadas, chega a ser difícil até de entendermos o que fez tais banalidades serem publicadas e o que passou na cabeça dos editores. Essa sensação é completamente condizente com o ponto de vista de Noam.

Por fim encontrei a razão de ter encontrado mídia de tão baixa qualidade no exterior, a falta de uma crítica, de alguns sabios e atrevidos ombudsmans que mostrassem aos leitores o tempo que estão perdendo tentando adquirir cultura em tais fontes.

Noam Chomsky para o Instituto Gutenberg

O Instituto Gutenberg convidou o lingüista americano Noam Chomsky para colaborar com seu trabalho de crítica de mídia — e dele recebeu a correspondência transcrita abaixo. Para contextualizar a carta-artigo de Chomsky, esclarecemos que ele recebeu exemplares do nosso boletim e um prospecto em inglês, onde apresentamos nossa visão da imprensa americana: independente e obrigada à maior precisão por causa da reação da sociedade, com ações judiciais, contra o mau jornalismo. Chomsky discorda — como é de seu feitio de intelectual crítico da cultura dos Estados Unidos. Lingüista revolucionário, trabalhando no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Chomsky destacou-se como ativista dos direitos civis. Um dos últimos de seus muitos livros traduzidos no Brasil é Ano 501 — A Conquista Continua, Scritta Editorial, 1993, acerca dos 500 anos da América. Como crítico da mídia, Chomsky tem uma conexão com a revista Z.

Fiquei muito interessado ao ler a respeito do Instituto Gutenberg. Penso, entretanto, que o prospecto está muito próximo da auto-imagem que a mídia ocidental criou. Realmente, análises críticas da mídia são um fenômeno muito marginal nos países desenvolvidos, e praticamente não existentes na Europa. Nos Estados Unidos tem havido mesmo análises críticas que demonstraram extraordinária subserviência ao poder — em um certo sentido, isto é pior do que em estados totalitários e terroristas, dado que aqui dizer a verdade não produz o mesmo tipo de punição. No entanto, este trabalho, que já produziu milhares de páginas de documentação detalhada, está muito longe da grande divulgação, e raramente, caso acontecesse, seria publicado nos principais jornais tradicionais. Existe uma discussão crítica nas publicações jornalísticas, mas é muito limitada, e restrita a edições secundárias. Não se acharia nada aqui parecido com o apelo dos bispos brasileiros em 1988 pela democratização da mídia. A única referência a isso que eu conheço nos Estados Unidos é em um livro meu sobre a mídia nos Estados Unidos, baseado em conferências sobre radiodifusão canadense e que foi um best seller lá, mas literalmente não mencionado nos Estados Unidos em virtude de ser crítico da performance da mídia americana. Há muita ilusão a respeito deste assunto, mais ainda na Europa do que aqui.

A idéia de que pessoas dos Estados Unidos pudessem levar a mídia a julgamento é também errada — felizmente, em minha opinião. A mídia pode se engajar em enganos e distorções sem fim no interesse do poder, como de fato faz, sem qualquer forma pela qual o público pudesse reagir via tribunais; novamente, essas precauções em cdefesa da livre expressão, incluindo o direito de mentir e de enganar, são características do sistema americano, acredito eu, embora a liberdade de expressão que é formalmente garantida seja mais como mercadorias em um mercado semicapitalista: uma certa quantidade está disponível no princípio, e você pode conseguir tanto quanto puder comprar. Há diversos jornais que regularmente monitoram a imprensa, principalmente EXTRA!, o jornal da organização Justiça e Acurácia da Informação. Tem havido vários outros, mas qualquer esforço para fazer análise crítica de instituições tradicionais naturalmente opera com recursos muito limitados, e fracassaram por essa razão. Obrigado também pelo convite para colaborar. Em princípio, eu estaria interessado. Escrevo bastante a respeito desses tópicos, inclusive diversos livros e artigos, mas não estou seguro se esse tipo de material se enquadraria bem no formato que você tem em mente. Eu até sugiro que você contate várias pessoas que fazem trabalho de crítica séria sobre a mídia aqui, em destaque Edward Herman, na Universidade da Pensilvânia (Wharton School of Economics; ele é aposentado, mas mantém um escritório lá) e Robert McChesney, na Universidade de Wisconsin, no Departamento de Comunicações. Ambos fazem um trabalho importante sobre esse tema, e provavelmente teriam mais tempo disponível do que eu, dados os muitos compromissos que tenho em diversas outras áreas.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Mídia manipula os três poderes

Nas últimas três décadas ele tem sido o mais implacável crítico da mídia no Rio Grande do Sul. Obviamente seus livros não viram notícia, mas circulam muito bem num meio influente. Isolado inicialmente, hoje ele tem a seu redor um grupo de professores e alunos que respondem pela maior produção de pesquisa em ciências sociais na PUC-RS. Formado em Teologia, Filosofia, Sociologia e Letras, pós-graduado em Psicologia da Comunicação, dá aula no pós-graduação da PUC-RS, coordena pesquisas, sem deixar de lado a atividade pastoral na periferia de Porto Alegre. Leia entrevista com Pedrinho Guareschi. De Elmar Bonés, no JornalJÁ (www.jornalja.com.br), de março de 2005


Qual é o foco do livro?

Guareschi. A gente está trabalhando muito a questão da educação. A tese central do livro é: sem uma educação para a mídia, nada feito...
O que é uma educação para a mídia?
Guareschi. As escolas devem incluir essa questão nos currículos, para ensinar a ler a mídia, a criticar e a entender a importância da mídia. A própria mídia que, pela constituição, tem um papel educativo, deve dar espaço para isso...
Hoje ela faz o contrário...

Guareschi. Sim, faz o oposto. Ela nunca diz, por exemplo, que os canais de rádio e televisão são concessões de um serviço público, não esclarece a diferença entre mídia impressa e mídia eletrônica, que são regidas por regulamentos completamente diferentes. A mídia impressa, jornais e revistas, é empresa privada, mas o rádio e a televisão são uma concessão de serviço público, que não pode ter dono. A mídia nunca diz também que há um direito do cidadão à comunicação, o artigo 19 dos Direitos Humanos assegura isso. Enfim, a mídia escamoteia uma série de informações e a escola também não esclarece. Resultado: o público ignora coisas essenciais sobre a mídia, que tanto influencia sua vida...


O público não conhece a mídia?

Guareschi. É isso. Na primeira parte apresentamos uma pesquisa, onde se revela uma ignorância generalizada sobre a mídia. A quase totalidade não sabe a diferença entre mídia eletrônica e impressa (98%, segundo a pesquisa), não sabe que os meios eletrônicos são concessões e não podem ter dono, não sabem que é um serviço público, etc.


O que vem a ser uma concessão?

Guareschi. As concessões são contratos celebrados pela União, que autorizam a utilização de uma faixa do espectro eletromagnético por onde são transmitidas ondas de rádio e televisão. Esses espectros são públicos e não pertencem àqueles que possuem as concessões. A eles cabe apenas o direito de utilizá-las e, sendo públicas, possuem obrigações éticas e morais com a população...


Você diz que a mídia é hoje o primeiro poder...

Guareschi. De fato, ela manipula os outros poderes, todos. Por quê? Porque não há controle da mídia. EmRoma, o poeta Juvenal já perguntava: Quem fiscaliza os fiscalizadores?.. Enquanto a sociedade civil não estiver organizada e não houver uma instância, como a BBC de Londres, que possa monitorar essa mídia...


Quem faria esse papel?

Guareschi. O Conselho de Comunicação Social, criado pela constituição de 1988, de certa forma começou a fazer. Ele é formado por representantes de 13 instituições, com maioria da sociedade civil.O Conselho estava fazendo audiências muitos boas.Foi ele que criou a Comissão de Acompanhamento da Programação de rádio e televisão (CAP), da qual eu sou membro titular. É quem está fazendo essa campanha .Quem financia a baixaria é contra a cidadania..


Algum resultado prático dessa campanha?

Guareschi. Essa comissão já conseguiu muita coisa. A gente recebe as reclamações, sistematiza, faz parecer e devolve para agências, para os produtores e, principalmente, para patrocinadores. Já se conseguiu mudanças impressionantes. Inclusive patrocinadores se recusaram a patrocinar. A Casas Bahia, por exemplo, caiu fora de um daqueles programas do fim da tarde, de violência. Por causa desse trabalho, esses três programas do fim do dia vão passar lá para o fim da noite... Estamos conseguindo muita coisa e a gente espera que esse despertar da sociedade civil vá conseguir muita coisa, embora agora, na última eleição, os empresários tenham ficado em maioria...


E o Conselho Federal de Jornalismo?

Guareschi. Era uma instância ótima, onde os próprios jornalistas fariam a crítica deles mesmo e se ajudariam no sentido de ver a importância, o papel decisivo deles. Numa entrevista, o Heródoto Barbeiro perguntou ao Mino Carta se não ia implicar em censura e tal...O Mino falou certo: não é essa questão. A questão é que a mídia tem dono, o dono dela faz o que quer. O jornalista é obrigado a dizer o que o dono quer, deixa de dizer o que o dono não quer. Esse é o poder difuso, tremendo, que decide na seleção, na combinação das mensagens.


A voz é dos donos...

Guareschi. Na verdade eles decidem... criam a realidade. Eu fico dolorido quando vejo a RBS fazendo campanhas enormes sobre suas próprias iniciativas beneficentes, sobre as crianças e tal, como se eles fossem os melhores do Brasil. Aí vem a pesquisa de imagem: qual a que mais aparece? Aí vem as marcas que mais aparecem... quer que apareça outra? Aí eles publicam de novo... é uma coisa recorrente, fechada.Na realidade, a RBS não pode fazer isso, porque é umserviço público. Estou falando de rádio e televisão, não estou falando de jornal. Jornal faça o que quiser, a turma tem que pagar para comprar o jornal... Agora rádio e televisão não são pagos, é tudo enfiado goela abaixo, porque o espectro é publico, tem que prestar conta, então não pode fazer isso!


Não pode fazer autopromoção?

Guareschi. Não pode. Teria que dar espaço a todos, porque quando ela faz autopromoção está competindo deslealmente com as outras. A mesma coisa quando o fulano lá começa a ler editorial da Zero Hora, desde às seis da manhã na rádio Gaúcha. Não pode. A Zero Hora é um meio impresso, aí cada um diz o que quer como quer. Agora a rádio Gaúcha é uma empresa pública, ela está usando o espectro que é publico, é concessionária de um serviço público, então não pode falar só da Zero Hora. Se quiser, tem que falar dos outros, de todos. É concorrência desleal! Isso é o monopólio, eles fecham o cerco.


E ainda tem os negócios imobiliários...

Guareschi. Ah, sim, hoje não sei como está isso, mas houve uma época que ficavam com 10% dos imóveis, em troca de espaço. Há uns dez anos quando começou a ocupação da Praia de Belas, também o Jurerê Internacional em Santa Catarina era feito assim...Enfim, as possibilidades são imensas quando se têm a propriedade cruzada dos meios . a horizontal, que alcança todo o território, a propriedade vertical, que envolve todos os meios, até internet.


Qual é o real tamanho dessa propriedade?

Guareschi. Olha, foi difícil o levantamento das concessões no Rio Grande do Sul.Até novembro de 2003 isso era segredo. Depois de muita pressão apareceu na internet a lista das concessões, ficou um tempo e saiu, fizemos cópia e pegamos a do RS. Havia 471 concessões de rádio e televisão no Estado, apenas 91 eram concessões não comerciais (6 TVs educativas e 85 rádios comunitárias). A RBS tem 64% das TVs comerciais do Estado. São 19 concessões comerciais no estado, 12 pertencem ao grupo familiar. Somos um Estado monopolizado.


Como eles reagem a essa sua crítica?

Guareschi. Houve, tempo atrás, uma manifestação do Nelson Sirotsky, quando saiu a terceira edição desse livro Os Construtores da Comunicação... Afilha dele que era aluna aqui na PUC me disse que ele gostaria de falar comigo, aí fui lá. Aí conversamos bem claro, percebi que nele o interesse é econômico.


Como assim?

Guareschi. O que move o homem é o cifrão, não é a ideologia, não são valores, não é a cidadania, é o cifrão. Falei do Rogério Mendelsky, que na época ainda estava na Gaúcha: como que ele sustentava um sujeito que falava aquelas barbaridades dos movimentos sociais, sem dar direito ao contraditório? Ele: .O Mendelsky traz um bom dinheiro, consegue os patrocinadores e faz ao vivo a propaganda testemunhal .. Ele trazia 300 mil por mês, fora os 20% que ficavam para ele.


Como vais divulgar o livro?

Guareschi. Pensei em colocar uns painéis de quatro metros ali na área do Fórum, mas me dissuadiram. Vamos distribuir folhetos. Estivemos em quatro mesas no Fórum Social Mundial, fazendo uma leitura critica da mídia, sendo dois seminários promovidos pela Frente de Comunicação... Nisso o livro vai indo. Há muito interesse nisso, é talvez a questão crucial para a democracia brasileira. Seria realista esperar que no Brasil se proíba a propriedade cruzada, como nos Estados Unidos?
Nos Estados Unidos tentaram derrubar a proibição. Estavam suprimindo as leis de aglutina ção e cruzamento, mas quando chegou ao Senado não foi aceita e voltou atrás:quem tem televisão não pode ter rádio, jornal. Aqui tem uma propriedade cruzada escandalosa. Nossa legislação é de 1967 sobre esse tema, nunca se legislou porque não há interesse, o assunto não é levantado. Quem vai levantar?. Nós fizemos uma pesquisa: 85%do que o povo conversa, no fim do dia, o que falei hoje, quem colocou o assunto foi a mídia, do que se fala na família, no trabalho, quem coloca a agenda é a mídia. Então é de uma importância tremenda, mas nesse terreno estamos no tempo das capitanias hereditárias. Temos os latifundiários da mídia e 97% da população acha que rádio e televisão tem dono. Recebem a concessão de graça, aí vendem por um preço fantástico. Tentou comprar uma rádio? A PUC tentou, pediram milhões.


E os jornalitas, como você vê?

Guareschi. Os jornalistas são empregados. Lula tinha toda a razão quando chamou de covardes, mais do que isso, traidores. Se existe Conselho de Psicologia, o Conselho dos Bispos, a Ordem dos Advogados, o Conselho de Medicina, por que não um Conselho de Jornalismo? Porque os donos da mídia não querem. São covardes... Na sociedade plural cada grupo tem que ter a sua consciência, não tem explicação.


E o Fórum o que é?

Guareschi. O Fórum é o social como alternativa ao econômico, é alternativa ao político tradicional, é outra democracia, a participativa, em vez da representativa. Você é militante de algum partido?
Nunca me filiei a partido, participei da fundação do PT com Frei Betto, mas não milito. Por aí sou tido como petista, mas mantenho minha independência. Apóio, assessoro o MSTna parte de comunicação, encontro com eles em cada semestre.


Teve algum problema na PUC por causa das suas críticas?

Guareschi. Não. Procuro manter minha liberdade. Sempre procuro justificar o que digo. Se eu faço uma afirmação... vamos discutir, discordamos, mas se digo... não vou afirmando adoidadamente.

O jornalismo fiel ao dono


Por Luiz Geremias em 2/10/2007

A revista Veja tem dado bons exemplos daquilo que é mais criticável no jornalismo. Além de ter descambado definitivamente para a telenovelização da notícia, dá mostras de como funciona o jornalismo subserviente aos interesses da empresa que o controla.
A notícia parece vir pronta, independendo de qualquer apuração, de acordo com o interesse do patrão: quando o dono determina, abana o rabo e lambe os pés de qualquer um, como um doce poodle. Da mesma forma, a um sinal, vira pitbull.
A sorte é que esse tipo de prática jornalística é nocivo apenas para um certo tipo de leitor. É o caso daquele cara que sai por aí repetindo, ipsis literis, idéias prontas, como se fossem suas. O mesmo que Curtis White diz ser portador de uma "mente mediana", o "indivíduo medíocre" de que nos falava Jose Inginieros há muito tempo. Ou, para H. L. Mencken, o "homem inferior" que sustenta a lucratividade da grande imprensa. Aquele que deve ser assustado e depois tranqüilizado para se manter presa desse discurso midiático: "Primeiro, amedronte-o com um bicho-tutu e corra para salvá-lo, usando um cassetete de jornal para matar o monstro", ensinava Mencken.

Pensadores orgânicos

Vejamos que veículos como a Veja parecem ter o interesse de paralisar a capacidade crítica de seus leitores, de mantê-los na mediocridade intelectual, disseminando sua moral subserviente. Uma das estratégias para isso é a simulação de adesão a um ideário sócio-político.
O leitor acaba iludido em um pastiche ideológico. Pensa estar repetindo um discurso fundamentado acerca da realidade, quando na verdade está professando lugares-comuns vagos, criados apenas para desviar a atenção dos reais interesses dos financiadores desse tipo de jornalismo.
Para realizar essa tarefa, a Veja conta com seus "intelectuais orgânicos", aqueles que são liberados a dar suas opiniões e incentivados a tecer comentários inteligentes. Os que assinam em baixo do que escrevem e assumem a autoria de seus pensamentos. Para essa forma de jornalismo, que parece se resumir ao objetivo de satisfazer interesses empresariais, esses pensadores orgânicos são fundamentais. São eles que falam pessoalmente ao leitor e simulam a adesão a um discurso sócio-político. São os colunistas, que hoje ganharam espaço privilegiado com os chamados blogs.

Mente mediana

A revista Veja tem um time de colunistas-blogueiros. Um deles, Diogo Mainardi, parece já ter conseguido se estabelecer como uma personalidade folclórica do ideário costumeiramente chamado de "reacionário" ou "de direita", uma espécie de discípulo de Olavo de Carvalho. Outro é Reinaldo Azevedo, que, tudo indica, provavelmente aprendeu muito com Francis Fukuyama e sua eternização do liberalismo econômico pela noção simplória do "fim da história". Tudo o que não diz respeito ao pensamento único do capital é execrável ou, pior, démodé.
O governo Lula, por exemplo, é execrado pelos dois. Porém, o que é importante não é isso. Pouco importa se odeiam o presidente ex-metalúrgico ou não, pois isso parece depender de ordens superiores. Menos ainda importa o conteúdo de seus comentários. Tudo indica que são compostos de frases feitas, de idéias prontas e fatos ocultos, fidelíssimos no intuito de manter o patrão de bom humor.
O colunista-blogueiro Reinaldo Azevedo, no último dia 18 de setembro, publicou um texto ultrajado no qual condenava explicitamente a citação do pensamento de Karl Marx no livro didático público criado e distribuído pelo governo paranaense aos alunos do nível médio. Marx, todos concordarão – menos Azevedo e alguns portadores da "mente mediana" – é um teórico consagrado, cujo pensamento merece sempre ser revisitado, mesmo pelos que o entendem criticamente.

Assédio aos professores

O alvo era o livro didático público paranaense de Educação Física, no qual um texto sugere aos alunos que refletissem sobre se o esporte não poderia estar sendo tratado como mercadoria na contemporaneidade. Nada mais salutar, pois essa é uma concepção corrente entre os estudos sociais contemporâneos que entendem que isso acontece não apenas com o esporte. Para Azevedo, porém, isso corresponderia a atacar o caráter competitivo do esporte e doutrinar as crianças para a subversão. Trágico para ele, cômico para nós.
O mais tragicômico é descobrir que, lendo o livro, se percebe que há, isso sim, o interesse de incitar o aluno a pesquisar e pensar sobre a suposta natureza competitiva humana. Isso, porém, para Azevedo, é quase um crime.
Após ler o texto do blogueiro anti-Marx, me pus a pensar sobre o caso. Entendi que sua gana deve ter relação com o fato da revista Veja ser publicada pela Editora Abril, que é proprietária das editoras Ática e Scipione, ambas especializadas em livros didáticos e que, graças à portaria 2.963/05 do Ministério da Educação, vêm amargando prejuízos e odiando ardentemente o governo Lula. Provavelmente, se os negócios andassem melhores, o amariam. Bastaria que o ministro Fernando Haddad permitisse que continuasse a prática de assédio aos professores por parte dos representantes das editoras da Abril, cessada pela portaria.

As crianças e o marxismo

Lembro, ainda, que a Abril e seus veículos têm por hábito bombardear as editoras concorrentes nesse ramo, havendo o prestimoso exemplo de uma recente campanha movida contra a Editora Nova Geração, de propriedade de Domingo Alzugaray, ex-diretor da revista IstoÉ. O problema está no fato de que o governo federal haveria comprado da Nova Geração, após consulta a docentes, 3,5 milhões de livros didáticos para estudantes e aproximadamente 60 mil livros para professores. Isso, com certeza, deixou fulo o pessoal da Abril.
Ficaram tão coléricos que o citado blogueiro, ao se referir ao livro Nova História Crítica, perde o prumo e chega a pedir, emocionado, que protejamos nossas crianças do "molestamento ideológico". É claro que ele pode pensar e dizer o que bem entender, mas que é engraçado, ah, isso é.
Não é difícil supor de onde vem o furor "direitista" em relação ao livro da Nova Geração. Também não é de se estranhar como surge o mau humor em relação ao livro didático público paranaense, ainda mais quando se sabe que tudo o que os blogueiros publicam deve receber o carimbo de "ok" do patrão.
Ao editar e distribuir seus próprios livros, o governo do Paraná entra no rol dos concorrentes diretos da Abril. Fecha às editoras Ática e Scipione um rendoso mercado. Se isso for levado em conta, está explicada de forma bem convincente a raiva em relação ao livro que põe em xeque a lógica da concorrência como valor supremo. Parece estar mais uma vez desmascarada a simulação de pensamento da revista e seus colunistas. O que estaria em jogo seria simplesmente atacar a concorrência, nada de discordâncias teórico-políticas fundamentadas, muito menos preocupações com as pobres crianças doutrinadas para o marxismo.

Autismo tautológico

Não parece haver qualquer pensamento político aí. Parece haver, isso sim, uma cortina de idéias prontas, tecida para ocultar outros interesses e, infelizmente, desviar a atenção do leitor mediano da verdadeira lógica que comanda a produção de notícias das grandes corporações da mídia. Diziam os marxistas Theodor Adorno e Max Horkheimer: empresas não têm ideologia, têm negócios.
Mais uma vez, vemos ilustrada a velha máxima que determina que a diferença entre os partidários da esquerda e da direita está na seguinte definição: os da esquerda são militantes, lutam por propostas e ideais e estudam até os estéreis textos capitalísticos; os da direita são sócios, parecem lutar apenas para encher os bolsos e, com certeza, não podem sequer ouvir falar de Marx. Nenhum problema nisso, mas é preciso informar ao leitor o que se passa e como se passa.
O leitor mediano acaba iludido. Ao pensar que o que lê nos colunistas blogueiros de Veja é fruto de uma reflexão teórico-política, construída graças a uma boa educação teórica, pode estar sendo induzido a um erro e sair por aí repetindo o pensamento ready made que, na verdade, se contextualizado, é facilmente desmascarado.Uma abordagem conhecida sobre a comunicação humana a difere da usada pelos cães por esta ser egocêntrica, ou seja, voltada para si. Quando um cão late, segundo essa teoria, não sabe se seu latido tem algum significado para outro cão. Se este outro cão responde, é apenas porque foi estimulado pelo latido, não porque tenha "algo a dizer" ao primeiro cão. Se este é o mecanismo que rege a comunicação canina, muito provavelmente deve ser, também, a lógica desse jornalismo fiel ao dono: uma espécie de autismo tautológico nos moldes do já estudado por Lucien Sfez. Quem perde, como dito, é o leitor, que deveria ser encarado como o verdadeiro dono do veículo.
Texto retirado do site Observatório da Imprensa.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O inferno de Aguinaldo Silva



O inferno de Aguinaldo Silva
Ameaças de morte, queda no Ibope e stress - o autor de Duas caras quase desistiu da novela

ELIANE LOBATO

Em matéria de Ibope, o autor Aguinaldo Silva conheceu o paraíso e o inferno nos últimos dez anos. Teve a melhor audiência da década com a sua novela Senhora do destino. Com a atual, Duas caras, também no horário nobre da Rede Globo, carrega o título de pior pontuação de segundo capítulo desde 1997: 35,5 pontos. Em entrevista a ISTOÉ, ele admitiu, pela primeira vez, que a novela começou mal mesmo: "Os capítulos eram meio dark. Eu estava vivendo um problema pessoal e isso acabou se refletindo no campo profissional, mas já passou, o trabalho entrou agora no tom habitual. Estou feliz e tenho consciência de que esta é a minha melhor novela, a mais cirúrgica, a mais apurada." Aguinaldo Silva não revela qual é o problema pessoal. Mas tornou público em seu blog um outro fato grave que o abalou profundamente: estava sendo ameaçado de morte em telefonemas anônimos. Chegou a pensar em deixar o País e interromper a novela. Some-se a isso os números do Ibope: todo o Projac sabe que queda na audiência da novela das oito é motivo de stress na emissora e Aguinaldo Silva não está imune a essa cobrança, ainda que ele afirme que não tem sofrido pressão alguma da Rede Globo.
"Ontem (segunda-feira 12) tinha 66% de aparelhos ligados e 41% estavam na novela", diz o autor. Provavelmente, na sexta-feira 16 ele terá mais motivos para comemorar depois que a dançarina Alzira, personagem interpretada por Flávia Alessandra (a campeã de cartas da Globo), aparecer totalmente nua. Essa é, certamente, uma das mexidas para tentar se livrar do inferno. Outras também virão e se referem à inclusão de mais humor e graça, embora isso não signifique o abandono das abordagens polêmicas - homossexualismo (por meio do personagem de Thiago Mendonça), preconceito racial (enfrentado pelo casal interpretado por Débora Falabella e Lázaro Ramos), especulação imobiliária, etc. "É uma novela de alto risco, mas se não tiver risco não tem graça", diz o autor, que já explorara o realismo fantástico em folhetins anteriores e agora ataca só de realista - a vida nua e crua, sem alegorias. "Eu queria fazer uma novela politicamente incorreta, que saísse dos limites, que pesasse a mão sobre determinados assuntos e que fosse realista", diz Aguinaldo Silva.
HOMOFOBIA Personagem de Thiago Mendonça (à esq.) é vítima de deboche
Na semana passada foi ao ar uma cena que simboliza bem esse conceito. Um homem sofre um acidente com seu carro repleto de alimentos numa avenida do Rio e Janeiro e o que fazem as pessoas ao vê-lo imóvel, machucado e preso pelo cinto de segurança? Saqueiam a carga que ele transportava e roubam seus pertences pessoais. "Isso é real, aconteceu com um amigo meu. Ele usava dentadura e até isso roubaram!" Cenas de vida dura como essas causaram certa reação no início, como diz o próprio autor: "As pessoas ficaram chocadas, mas agora começaram a embarcar." Ele lembra que Duas caras está em seu primeiro mês de vida e que, portanto, passa pelo "período de maturação". Mas que ninguém espere os altos índices do passado porque a televisão brasileira sofre inegáveis transformações. Entre 2005 e 2007, por exemplo, a audiência do horário nobre diminuiu quase sete pontos. Aguinaldo Silva arrisca explicar: "As pessoas lêem menos jornais e vêem menos televisão. Mas consomem mais DVDs, especialmente piratas, são campeões em freqüência no Orkut, ficam muito na internet."

ALTO RISCO Segundo Aguinaldo Silva, não tem graça fazer novela que não ouse ou incomode

"Verissimo é bem tratado. Autor de novela só leva paulada"

ISTOÉ - O sr. tem respondido a críticas, feito críticas. Anda tenso?
Aguinaldo Silva - Ando é cansado deste desdém em relação ao trabalho em tevê, mais da chamada imprensa especializada, que chega ao limite da baixaria. Como eu tenho um blog, falo quando acho que vai contra a verdade. É tudo pensado friamente, não é rompante.

ISTOÉ - Esse "desdém" é só com novela?
Silva - Com o trabalho em tevê. Vou dar um exemplo: o Luis Fernando Verissimo. Ele é simpático, cronista mediano, tem alguns livros bastante fraquinhos, mas eu nunca li uma crítica dizendo isso. Ele é tratado com a maior consideração porque é escritor. Já o autor de novelas é sempre desdenhado. Leva paulada de todo o lado. Acho que a gente merecia mais consideração, como o Verissimo.

ISTOÉ - Que história é essa de ameaças?
Silva - Não tem nada a ver com política. Começou com a novela. São pessoas que querem tirar minha paz. Provavelmente, pessoas do meu próprio círculo, não de amigos, claro.

ISTOÉ - Ameaçavam a sua vida?
Silva - Ligavam de madrugada, às vezes, dez ligações em um dia. Criticavam meu cabelo, a aparência física. À medida que a novela foi criando polêmica, começaram a falar: "Você vai acabar no valão."

ISTOÉ - Descobriu de onde vieram as ligações? Pararam?
Silva - Eram feitas de orelhão ou de celular com identidade privada. As do orelhão, descobrimos que eram feitas num trecho que vai da Taquara até o Projac (estúdio da Rede Globo), em Jacarepaguá (subúrbio do Rio). Me leva a suspeitar de relações antigas, ex-empregado. Olha, vou confessar aqui: tenho um suspeito e liguei para o celular dessa pessoa para apurar. Depois da denúncia em meu blog, este celular está sempre desligado. As ligações pararam.

ISTOÉ - O sr. ainda pensa em sair do País e deixar a novela?
Silva - Houve um momento em que pensei: não vale a pena! Mas o trabalho do autor é assim, uma solidão absoluta. A falta de respeito aumenta quando o Ibope da novela sobe.

ISTOÉ - A Globo cobra audiência ou mudanças na novela?
Silva - Não. Não digo isso para puxar o saco. Não preciso. A generosidade da emissora é impressionante.

ISTOÉ - As ameaças podem ter ligação com a abordagem de temas polêmicos na novela, como homossexualismo, racismo, etc?
Silva - Acho que não. Houve um momento que pensei nisso. Existem os fundamentalistas de esquerda. Mas depois percebi que não era por aí.



Texto retirado da Revista Istoé/Cultura